Testando esse negócio de categorias...

A Rosa e a Carta

 

Quando entrei no quarto, Takeshi, ajoelhado no chão, olhava atentamente as coisas que encontrara na caixa. Estava tão absorto no que fazia que não percebeu a minha aproximação. Coloquei-me atrás dele antes de dizer num tom de voz acusador e brincalhão ao mesmo tempo:

“Mãos ao alto!”

O garoto assustou-se e fechou a caixa rapidamente. Abaixou a cabeça, envergonhado. Ao invés de brigar com ele, sentei-me ao seu lado e olhei as coisas espalhadas pelo chão. Aquilo me trouxe recordações amargas. Emaranhei-me num velho álbum de fotos amareladas do meu próprio passado, olhando imagens que tentava esquecer inutilmente. Estava tão absorto que não escutei a voz de meu neto. Apenas quando o fitei, percebi que falava comigo.

“Desculpe-me, pequeno, mas pode repetir o que disse?”

“Eu peço desculpas, vovô... Não devia ter mexido nas suas coisas.”

“Tudo bem, Takeshi. Mas que isso não se repita, entendeu?” depois que ele sacudiu a cabeça em concordância, continuei: “Agora, desça que sua avó acabou de tirar um bolo do forno.”

Depois que meu neto saiu, voltei-me para as coisas que ele encontrara. Balancei a cabeça, inconformado com tanta curiosidade. Aquela caixa ficava escondida e ninguém jamais a achara. Eu nunca mexia nela. As recordações que ela trazia não eram nada boas. Mas agora lá estava ela, mostrando-se por inteira. Senti as lágrimas descendo pelo meu rosto murcho e cansado, que a vida ficara encarregada de marcar profundamente.

Comecei a guardar tudo furiosamente, como se quisesse esconder meu passado de mim mesmo, mas guardava com tamanho mau jeito e pressa que, ao pegar um livro pela capa, algumas coisas caíram no meu colo. A que mais me chamou a atenção foi uma rosa vermelha amassada. Estava como eu: sem o vigor da juventude e cheia de recordações. E ela despertou uma lembrança especial em minha memória.

Lutei na Segunda Guerra Mundial. Tinha apenas 18 anos, mas parecia um garoto de 10. De muitos combates eu participei, muita gente eu vi morrendo, muitos ferimentos eu tive, mas nada que me tirasse do exército. Vi o que era o medo, a insegurança, a desesperança, o olhar vago e perdido de quem perdeu tudo e todos. E foi no meio disso que conheci Miaka. A paixão tomou conta dos dois e eu já fazia planos. Queria me casar com ela e, a partir daí, constituir uma família. Tudo isso ao fim da guerra. Não queria me casar ainda servindo, pois a morte era algo muito presente e não me agradava a idéia de deixar uma mulher viúva tendo que criar nossos filhos sozinha.

Porém, o destino adora brincar com as pessoas. Mesmo com o exército enfraquecido e sem um real motivo para lutarmos, fui para o front, apesar dos protestos de Miaka que chorou diante de minha convicção em partir. Enquanto a consolava, não pudemos resistir e ela acabou se entregando para mim. Antes de ir, ela me deu a rosa vermelha que eu segurava 60 anos depois.

Foi no campo de batalha que descobri que ia ser pai, mas novamente o destino me pregaria uma peça. Atingido por uma granada, fui conduzido desacordado para o hospital onde acordei alguns meses depois com a notícia do fim da guerra e das bombas nucleares lançadas no Japão. Miaka era de Hiroshima! Meu desespero não podia ser maior. Queria levantar-me daquela cama, mas não foi possível, já que muitas pessoas impediam-me.

Saí do hospital tempos depois com minha vida destruída. Mudei-me do Japão na tentativa de esquecer meu passado e reconstruir tudo com o pouco que tinha, que era mais uma vontade de lutar contra a desesperança que reinava no meu coração após o fim da guerra do que bens materiais propriamente dito. A imagem de Miaka na nossa última noite juntos continuava na minha cabeça. Junto com ela estava a esperança de que minha amada e meu filho estavam vivos em algum lugar e de que ainda os acharia vivos.

Mas o tempo é nosso inimigo. E ele passava rapidamente enquanto procurava. Com minha vida reconstruída em outro lugar, comecei a conviver com outras pessoas e acabei conhecendo minha atual esposa. Meu sentimento era menor do que o que eu sentia por aquela que deixei no meu país de origem. Sentia um enorme carinho por ela apenas, mas mesmo assim nos casamos. Tivemos filhos e netos. Porém queria saber onde estava aquele filho que não conheci. Como será que ele era?

As lágrimas correram mais rapidamente. Levantei-me do chão para guardar a caixa, mas minhas mãos tremiam tanto que acabei derrubando-a e todo o seu conteúdo espalhou-se novamente. Ainda com a visão embaçada, comecei a arrumar tudo, entretanto algo chamou minha atenção: uma carta fechada. Deveria ter sido entregue enquanto eu estava desacordado no hospital. A enfermeira deveria ter colocado-a dentro da mochila, junto meus pertences e, como nunca chegara a mexer com atenção naquilo que me provocava tanta dor, não li o que agora estava em minhas mãos. Por uma obra do destino, a enfermeira esquecera de me avisar sobre a carta. Não a culpo. Eram muitos os feridos que necessitavam de cuidados.

O remetente me indicava que a carta era de Miaka! Olhei bem para ver se era minha mesmo e lá estava meu nome, Issamu Konda, com a grafia firme dela. Hesitei para abrir o envelope. O medo das notícias impedia-me de seguir em frente. Minhas mãos tremiam na expectativa de descobrir algo. Respirei fundo e pensei em todas as possibilidades de notícias que podiam conter em suas folhas.

Finalmente, reuni coragem e pus-me a ler, esperançoso. Ao terminar, lágrimas corriam pela minha face num misto de tristeza e alegria. Ela sobrevivera ao ataque, mas o nosso filho não resistira à radiação. Meu desejo era vê-la, mas sabia que era impossível encontra-la. Só de saber que ela não morrera no ataque deixava meu coração aliviado. Tinha esperança de que, apesar de tudo, ela tinha sido feliz em sua vida, que havia casado e construído uma família, assim como eu construíra a minha, sem nunca esquecê-la totalmente.

Guardei a caixa, separando a rosa e a carta: elas seriam o marco de uma nova fase da minha vida. Uma fase com mais esperança e felicidade

 

Autor: Júlia Colussi